quarta-feira, 27 de maio de 2015

Misericórdia

Eu por muito tempo ajudei uma creche em uma cidade satélite de Brasília, era o CEPAI, essa obra era liderada uma senhora adventista chamada Maria da Guia, ela tinha um coração apaixonada por crianças ao ponto de viver lá e cuidar pessoalmente de cada pessoinha. Esse local era diferente das outras creches, nela tinha crianças filhas de viciados de drogas e moradores de rua, crianças provenientes de lares destruídos e de pais presos e que não tinham condições de cuida-las. Geralmente passavam a semana na creche e nos fins tinha a reconciliação familiar, um momento de juntar a família para tentar uma reaproximação. O CEPAI realmente era encantador, apesar de ser um lugar muito humilde, sem apoio do governo e com pouca estrutura, lá as crianças eram felizes e bem cuidadas, existia uma alegria no ar. Eu e minha esposa amávamos estar lá e levar doações e alimentos, mensalmente passamos uma tarde com eles e sempre éramos muito bem recebidos; consigo lembrar do suco de caju que não saiamos sem beber um pouco, das crianças correndo pelo quintal de terra batida e brincando em meio a areia e os tijolos de construção, muitas vezes ficamos para participar do seu culto e choramos ao vê-las orando e tendo o seu momento com Deus. Tinha uma menininha que arrebatou o nosso coração, ela era filha de uma moradora de rua com HIV, sempre muito carinhosa com sua cuidadora e nós os visitantes, recebíamos um abraço gostoso e tinhas conversas agradáveis, ela tinha sete anos, sua irmã gêmea já tinha morrido a um tempo proveniente da doença, mas ela até aquele momento nada se manifestou e todos esperavam até a chegada dos quatorze anos para saber se ela estava realmente livre desse mal. diferentemente das outras creches que quando chegávamos as crianças se lançavam sobre nós com a esperança de serem adotadas, lá não, elas queriam brincar e se recolhiam debaixo dos braços da nobre senhora.

A dona Maria da Guia contávamos as suas histórias, conquistas e o crescimento daquelas crianças, com alegria relatava as saídas coletivas onde colocava todos em uma Kombi ou ônibus para fazer passeio. Me lembro da vez que ela contou que o seu veículo quebrou e eles ficaram na beira do caminho, sem ter o que fazer sentaram todos na beira da estrada e ficaram esperando o concerto para prosseguirem, ela pegou uma panela cheia de arroz que estavam levando para almoçar e lá mesmo comeram e foi aquela festa, a criançada adorou aquele momento. Parecia que não tinha tristeza, ora, criança sabe aproveitar mais o momento do que os adultos, o que seria vergonha pra muitos para eles foi uma festa.

Eu rotineiramente levantava doações para a creche, mas com o passar dos meses as doações foram diminuindo ao ponto de somente eu estar contribuindo. Cheguei um dia na Maria da Guia e disse: “Não sei se virei mês que vêm, não tenho mais doações para trazer!”, ela com muita sabedoria respondeu: “Venha assim mesmo, elas adoram quando vocês vêm, pois brincam com elas, rolam no chão, elas querem é isso! Muitos que vêm aqui nem olham para elas, deixam as coisas e vão embora.” Naquele dia descobrir algo mais profundo sobre a obra social, que muitos que fazem aquilo não fazem por causa do outro, mas por si próprio. O coração deles não está amando aquelas pessoas, não se importa com elas, é como se fosse um procedimento, um ritual, algo para limpar a consciência ou dependendo da religião um rito para salvação dela. Existe uma frase que permeia as obras sociais que é “Não se envolva com eles”, ora, como eu posso ajudar alguém de verdade se o meu coração não está nele, como eu posso amar se eu não conhecer as suas mazelas e as suas dificuldades? É necessário que se envolva com a causa do próximo, que chegue ao coração e torne realidade. Não basta estar lá, tem que ter o seu coração lá. Que existem muitas pessoas realizando atos de compaixão sem o coração, isso não é misericórdia.

Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. (1 Coríntios 13:3)


Trecho do meu novo livro "Misericórdia"
 A foto anexada foi pega na internet de um evento que ocorreu no CEPAI, não é minha e nem do tempo que eu frequentava o local.